Incêndios de sexta geração: porque são quase impossíveis de combater

Publicado por Ayres Daio Neto em 2026-07-27

Incêndios de sexta geração: porque são quase impossíveis de combater

Como temos assistido nos últimos anos, e Portugal tem exemplos bem marcados na sua história recente, os incêndios florestais estão a tornar-se cada vez mais extremos. Em Espanha e França, os grandes fogos das últimas semanas voltaram a trazer para a discussão um conceito que preocupa cientistas e autoridades: os incêndios de sexta geração.


Segundo especialistas, este tipo de incêndio representa um novo patamar de intensidade, capaz de criar o seu próprio clima e de ultrapassar a capacidade de resposta dos meios de combate atualmente disponíveis.

O que distingue um incêndio de sexta geração?

Ao contrário dos incêndios convencionais, os de sexta geração libertam uma quantidade gigantesca de energia.

De acordo com Domingos Xavier Viegas, professor emérito da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra e uma das maiores referências mundiais nesta área, quando um incêndio ultrapassa os 10 megawatts por metro de frente de fogo, o combate direto torna-se praticamente impossível.

Nos casos mais extremos, já foram registados valores de 20, 30, 40 e até mais de 60 megawatts por metro. É este último nível que caracteriza os incêndios de sexta geração.

A intensidade é tão elevada que o próprio incêndio altera as condições atmosféricas à sua volta.

Como se mede a potência de um incêndio?

Os megawatts de um incêndio não são medidos pela área ardida, mas sim pela energia libertada por segundo ao longo de cada metro da frente de fogo. Este valor é conhecido como intensidade da linha de fogo (fireline intensity) e é calculado a partir da quantidade de combustível vegetal consumido, do calor produzido pela combustão e da velocidade a que o incêndio avança.

Na prática, os investigadores utilizam a fórmula desenvolvida pelo cientista canadiano George Van Wagner em 1977, que combina estes três fatores para determinar a potência do incêndio em quilowatts por metro (kW/m), normalmente expressa em megawatts por metro (MW/m).

Como referência, incêndios com cerca de 10 MW por metro já são extremamente difíceis de combater. Nos incêndios de sexta geração, a intensidade pode ultrapassar os 60 MW por metro de frente de fogo, tornando praticamente impossível qualquer ataque direto às chamas.

O fogo cria o seu próprio vento

Uma das características mais perigosas destes incêndios é a capacidade de gerar fenómenos meteorológicos próprios.

O calor extremo provoca fortes correntes ascendentes de ar, que alteram a circulação dos ventos locais. Isto faz com que o incêndio possa acelerar inesperadamente, mudar de direção em poucos segundos e lançar partículas incandescentes a centenas de metros ou até quilómetros de distância, criando novos focos de incêndio.

Em situações extremas podem mesmo formar-se nuvens pirocumulonimbus, verdadeiras tempestades geradas pelo calor do fogo, capazes de produzir ventos violentos, relâmpagos e novos incêndios.

Porque é que os bombeiros não conseguem apagá-los?

Quando um incêndio atinge esta dimensão, o combate direto deixa de ser eficaz. Nem os meios terrestres nem os aviões pesados conseguem travar a frente principal das chamas.

A estratégia passa por proteger populações, defender infraestruturas e tentar limitar a propagação através dos flancos ou da cauda do incêndio.

Entre as técnicas utilizadas estão:

  • Criação de faixas de contenção com máquinas de rasto.
  • Utilização de contrafogo, apenas quando as condições o permitem.
  • Evacuação preventiva das populações.
  • Proteção de edifícios estratégicos.

A prioridade deixa de ser apagar imediatamente o incêndio e passa a ser salvar vidas humanas.

À medida que as temperaturas aumentam e os períodos de seca se prolongam, o foco terá de passar da capacidade de combate para a prevenção. Isso inclui uma gestão mais eficaz da floresta, criação de mosaicos agrícolas e florestais, limpeza de combustível vegetal e maior preparação das populações.

Portugal já viveu incêndios deste tipo

Embora a expressão tenha ganho notoriedade recentemente devido aos incêndios em Espanha e França, Portugal já enfrentou fenómenos semelhantes.

Segundo Domingos Xavier Viegas, os incêndios de Pedrógão Grande, em junho de 2017, e os incêndios de outubro de 2017 atingiram níveis de energia compatíveis com incêndios de sexta geração.

Porque estão a tornar-se mais frequentes?

Os especialistas apontam vários fatores que, combinados, favorecem este tipo de incêndios:

  • Alterações climáticas, com ondas de calor mais longas e intensas.
  • Secas prolongadas.
  • Acumulação de combustível florestal.
  • Abandono da gestão das áreas rurais.
  • Paisagens florestais contínuas, sem descontinuidades naturais.

O relatório “Incêndios florestais em Portugal: Mais de 80 anos mostram que o país tem de mudar”, elaborado por especialistas e divulgado pela Greenpeace, identifica precisamente estes fatores como os principais responsáveis pela crescente dimensão dos incêndios em Portugal.

Os especialistas defendem que nenhum país está totalmente preparado para enfrentar incêndios desta magnitude.

                                    
                                

Vítor M.

Responsável pelo Pplware, fundou o projeto em 2005 depois de ter criado em 1993 um rascunho em papel de jornal, o que mais tarde se tornou num portal de tecnologia mundial. Da área de gestão, foi na informática que sempre fez carreira.

Fonte original: Pplware