Excesso de confiança dos condutores pode estar a comprometer a segurança nas estradas
Publicado por Ayres Daio Neto em 2026-07-15
Um novo estudo global revela um fosso entre a forma como os condutores percecionam a sua segurança na estrada e a avaliação feita por quem trabalha na área.
O relatório "Safety in Motion: Driving Trust in Modern Mobility", elaborado pela Economist Enterprise com o apoio da Brembo, ouviu mais de 6100 pessoas (entre elas, mais de mil profissionais do setor dos transportes) em dez mercados automóveis de referência: Brasil, China, França, Alemanha, Índia, Itália, Japão, Coreia do Sul, Reino Unido e Estados Unidos.
Segundo os dados, 90% dos condutores dizem sentir-se seguros nas suas viagens diárias. Contudo, entre os especialistas em segurança rodoviária, essa confiança cai para apenas 45%.
Este fosso de 45 pontos percentuais entre perceção e realidade pode estar, segundo os investigadores, a comprometer os esforços para reduzir os 1,2 milhões de mortes registadas anualmente nas estradas de todo o mundo.
Quatro perfis e quatro riscos diferentes
O estudo divide os países analisados em quatro grupos, consoante o padrão de confiança encontrado:
- Os otimistas: Brasil, China e Índia;
- Os guardiões: Coreia do Sul e Japão;
- Os pragmáticos: França, Alemanha e Itália;
- Os negociadores: Reino Unido e Estados Unidos.
O desfasamento é particularmente acentuado em mercados automóveis emergentes como o Brasil, a China e a Índia.
Nestes países, 94% dos condutores afirmam sentir-se seguros, apesar de a taxa de mortalidade rodoviária rondar os 16,2 mortos por cada 100 mil habitantes, praticamente o dobro da média global de 8,1.
Do lado dos profissionais, apenas 18% mostram confiança elevada na segurança atual destes sistemas de mobilidade.
Segundo o estudo, citado por vários órgãos de comunicação internacionais, isto explica-se pela rapidez com que infraestruturas, tecnologia automóvel e serviços de mobilidade urbana têm evoluído nestes mercados, uma evolução que parece ter melhorado a perceção de segurança mais depressa do que os resultados reais no terreno.
Mesmo na Europa, onde as taxas de mortalidade são as mais baixas do estudo, o problema persiste. Países como França, Alemanha e Itália registam um fosso de 39 pontos entre a confiança dos condutores e a dos profissionais, sinal de que a desconfiança em relação a tecnologias mais opacas ou sobrevalorizadas atravessa também os mercados mais maduros.
O foco do risco já não é mecânico, mas sim tecnológico
Um dos dados mais reveladores do estudo é que as falhas mecânicas deixaram de ser vistas como a principal ameaça na estrada. Apenas 3% dos profissionais do setor apontam defeitos nos veículos como causa relevante de acidentes.
Em vez disso, 30% identificam o uso incorreto ou a má compreensão dos sistemas de assistência à condução (em inglês, ADAS) como o principal fator de risco, enquanto 24% culpam funcionalidades que acabam por distrair o condutor.
Quase dois terços dos profissionais consideram ainda que a publicidade tende a exagerar as capacidades destes sistemas, transmitindo a ideia de que é preciso menos atenção ao volante, o oposto do que deveria acontecer.
Muitos condutores não compreendem as capacidades reais dos sistemas de condução automatizada. Não devemos assumir que a tecnologia pode substituir a nossa atenção.
Resumiu Jean Todt, enviado especial do secretário-geral das Nações Unidas para a segurança rodoviária e antigo responsável pela Peugeot, Ferrari e FIA, durante uma conferência de imprensa a 8 de julho, conforme citado pelo Automotive News.
Confiança sim, mas com os olhos na estrada
Apesar do otimismo generalizado, o estudo mostra que há vontade de mudança: 88% dos inquiridos afirmam estar dispostos a apoiar medidas de segurança mais rígidas, como limites de velocidade mais baixos e fiscalização reforçada, bem como a pagar mais por sistemas de mobilidade mais seguros.
A mensagem central dos investigadores é a de que a confiança dos condutores é essencial para a mobilidade do futuro, mas só faz sentido se estiver alicerçada em dados reais de segurança, e não apenas na perceção.
À medida que os veículos se tornam mais conectados e automatizados, fechar este fosso entre confiança e realidade pode ser tão importante como o próprio desenvolvimento das tecnologias.
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Fonte original: Pplware